Os cristais levam um mistério
Do qual seu brilho é só indício
E quando isso é levado a sério
Dominar se torna um vício
Anágni
Todas as famílias de Colinas Azuis deviam estar ali, ao redor da área cercada, acotovelando-se por uma melhor posição para acompanhar o confronto. Aldeões, donas-de-casa, ferreiros, militares, jovens sonhadores... e belas raparigas! E, no alto do camarote, amontoavam-se militares de alto posto, com suas armaduras com pedras solitárias do cristal etéreo, e tranças nos longos cabelos ruivos. Destacavam-se entre eles Selmalin, o béli local, e Nassá, de Melcártis, o béli mais influente do Nascente.
Berânu, filho de Nassá, era apenas um garoto dentro de sua própria armadura. Ele olhou para o oponente e temeu, sabendo que mesmo a espada sem corte, incapaz de ferir que não por pancada, já pesava em suas mãos. Lá, do outro lado da arena, em seu cavalo imponente protegido por placas de aço, Espendanco reluzia, vestido por plaquetas em peitoral e saiote, e por grandes peças de braceletes e caneleiras. O aprendiz do béli – ou imane, como eram chamados – tinha um capacete prateado com crina ruiva, e uma tela a proteger sua face.
A competição era disputada em honra de Nassá e de Melcártis, cidade temida e respeitada. Melcártis propunha a formação de uma liga local, baseada na lealdade e ajuda mútua. As cidades e vilas, embora distantes, ainda pertenciam ao Reino de Atala, com sede em Catebete, além dos campos e das montanhas – e, por isso, uma mera palavra para no Nascente. Uma palavra, e uma parcela da produção em impostos na época da colheita.
A guerra e a fragmentação sempre fora a tônica no Nascente, e todos estavam cansados de um caminho que não era frutífero para ninguém. Assim, Melcártis devia ser honrada como líder da liga não-oficial, e isso significava que ideal seria sua vitória.
“Mas é um torneio, e, como oferenda aos titãs e a Anágni, o maior de seus filhos, não deve ser arranjado”, pensou Berânu, sentindo revirar o estômago. Não era a primeira vez que ele competia, e seu temor não era só pela plateia ou pelo que significava lutar diante do pai. A ansiedade era por conta da soberania de Espendanco em todos os embates anteriores, não abrindo nenhuma brecha. Era alto, robusto e ligeiro. Um cavaleiro perfeito, e com leitura surpreendente do inimigo, jamais deixando de vencer no primeiro lance.
E Berânu... Ah, Berânu! Fora treinado pelo pai, dominara o sevaste e se tornara imane. Contudo, dedicava-se mais à arte da forja de espadas que ao treinamento de guerreiro. Seu maior sonho, analisando os intocáveis fragmentos de Tanadraco, a melhor espada forjada por Anágni, era compreender aquele trabalho em bronze, adaptar seus enigmas para o aço.
Um cartor vestido de vermelho com chapéu divertido pulou a cerca e entrou na arena, dizendo:
– Ao meu sinal!
Berânu se concentrou, e se voltou para o oponente. A arena oval era dividida ao meio por uma cerca, e cada cavaleiro se dispunha em um dos lados. Não havia quaisquer outras regras específicas, mas a honra de cavaleiro exigia que se galopasse de encontro ao oponente, golpeando-o no momento em que se cruzassem. Não haveria a magia do éter no embate, e, por isso, todos avançavam destemidos. Mortes eram raras, e a última delas, em Melcártis, já se tornara um mito, de modo que para Berânu ela era tão significativa quanto a Rainha-Deusa – ou seja, nada.
O cantor atirou um ovo contra a cerca, e errou. O ovo passou direto e caiu na areia do outro lado. O público suspirou, aliviando a tensão. Berânu, pela grade do capacete, olhou para Espendanco, e viu que ele aproveitava para se voltar para o camarote. Lá do alto, Selmalin, seu béli, que era jovem para o cargo, algo não tão raro, estava parado feito uma estátua, não fosse pelo vento agitando seus cabelos ruivos.
Um novo ovo foi atirado, e ele representava Anágni matando o dragão; desta vez, foi certeiro, e clara e gema espirraram no ar.
– Colinas Azuis! – gritou Espendanco, com sua voz imponente, e seu cavalo negro saiu em disparada, vindo feito a morte na direção de Berânu. O imane apontava a espada na direção do jovem oponente, segurando apenas com a mão direita o montante que Berânu tinha dificuldade para empunhar com as duas.
– Anágni! – respondeu Berânu, como fora orientado pelo pai, ressaltando a liga entre as cidades. E ele se sentia bem gritando aquilo, pois o precursor do uso do sevaste era seu herói. Por motivos diferentes do pai, talvez, mas era.
E os cavalos, ambos negros e vigorosos, bravamente buscavam um ao outro, seguindo seus donos sem hesitação, levantando poeira conforme ganhavam velocidade. O encontro, inevitável, veio mais ligeiro do que Berânu poderia esperar. E, quando Espendanco era próximo, e recuou o braço com a espada para atacar, o imane de Melcártis se apavorou, não conseguindo preparar seu golpe a tempo, puxando com força as rédeas para a direita, para longe do perigo. Sonoramente, a espada de Espendanco rasgou o ar, e raspou na armadura de Berânu, em suas costas.
O filho de Nassá não sentia dor, e sim um frio na barriga e uma tremedeira nos braços. Como Espendanco era rápido! E suas palavras, cheias de empáfia, soaram na mente de Berânu enquanto fazia o cavalo parar e dar meia-volta, tão vívidas quanto no encontro dos dois na festa da noite anterior, quando o jovem imane de Melcártis fazia sucesso com as garotas por seu sucesso nas preliminares: “Você só está aqui porque é o filho de um béli. Tenho certeza de que há outros mais capazes que você, porém sua genealogia o torna privilegiado. Assim como eu um dia verei o pequeno filho de Selmalin ocupar o meu lugar.” Berânu, corando, lhe respondera: “Bem, eu venci todos os meus embates hoje.” Olhando em seus olhos, o robusto Espendanco gargalhara.
Respirando fundo, Berânu procurou se acalmar. Do lado oposto da arena, seu oponente o encarava, pronto para um novo turno. A agitação na plateia aumentou quando Espendanco, o bem-amado da cidade, e desejado das donzelas, segurou as rédeas com uma só mão, e avançou girando alto a espada, como um líder de cavalaria exortando os companheiros ao combate.
“Eu não estou aqui só por ser o filho de Nassá de Melcártis”, afirmou Berânu em pensamento, como que para convencer a si mesmo. E avançou, decido a não mais priorizar a própria segurança: não venceria Espendanco tentando enervá-lo – era mais fácil que se amedrontasse de vez no processo –, ou cansando-o – o condicionamento era aliado do imane de Colinas Azuis –; a vitória só viria pela sorte, pelo Destino. Que, no fim, molda todas as coisas. Ou a vitória, ou a derrota de uma vez!
No camarote, os mádis, imanes e bélis, e também as mulheres, acabaram se debruçando sem perceber, sentindo que tudo se decidiria ali. O público parou de gritar, e se fez silêncio, como se a paz das montanhas distantes que, azuladas, tomavam o horizonte por todos os lados, recaísse sobre Colinas Azuis.
Bêranu esvaziou a mente de todo pensamento, como se fosse fazer chamuscarem aço e sevaste, e percebeu a estranheza de ter que golpear da esquerda para a direita, agora que os lados tinham se invertido. Mas aquilo era uma situação comum entre os combatentes, e Espendanco também teria a dificuldade.
Em teoria, decerto, já que o imane, ainda só usando a mão direita, puxou a espada para dentro e retornou, simples e eficaz. Berânu, temerário, também desferiu o seu golpe, no mesmo estilo, porém mais uma vez Espendanco foi tão ligeiro que não era possível saber se fora acertado. Já Berânu, ouviu o ruído estridente de aço contra aço, e sentiu o impacto súbito, perdendo o ar. O cavalo continuou galopando, mas o cavaleiro se encolhia, parecendo que ia desmaiar. Seu braço direito perdeu a força, e a espada caiu no chão. Tudo foi escurecendo para ele, e a última imagem foi o pai se afastando da amurada, decepcionado.
Berânu, Nassá e Selmalin são personagens que aparecem em Os Herdeiros dos Titãs, que se passa poucos anos após este conto.
Anágni, uma grande personalidade de dois milênios antes deste conto, está por trás da descoberta do poder dos cristais, e é uma lenda viva em Grabatal.
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Olá Eric, como vai?
ResponderExcluirSou autora do Blog Obra Opinada (http://obraopinada.blogspot.com/) e vim perguntar se você está fazendo parcerias atualmente.
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Thay
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